Sábado, 2 de Junho de 2012

INSÓNIA


A minha casa está assombrada. Por mais que tente enroscar ou desenroscar uma lâmpada do candeeiro, ela vibra, estremece, produz um som fino de esforço semelhante ao bordo de um copo de cristal percorrido com a ponta humedecida do polegar. Há instantes, pela primeira vez, o altifalante do antiquíssimo despertador digital irrompeu em interferência de micro-ondas por causa da proximidade do telemóvel, arrancando-me em sobressalto ao quase sono a que me entregava. A minha pele eriça-se em cada poro como nesse instante, só de o evocar. Pareço um gato, os meus pêlos estão todos no ar, algo de vital e absurdo e desconhecido se apodera do meu espírito. Dou por mim nu, no meio da sala, a executar uma estranha dança. Deixo que o meu sentido de humor me leve a executar uma inesperada coreografia, cuja agilidade me arrepia e me deleita, a mim, que ando tão perro, incapaz de dobrar as costas. Quero escrever, mas escrevo outra coisa, esta mesmo, precisamente. De cada vez que percuto as teclas do computador, o meu tímpano estremece, e só a custo suporto essa impressão no ouvido. O meu sentido de humor faz-me rir disto tudo, mas esta tarde a minha impressora pôs-se aos gritos e gemeu, numa avaria dilacerante, quando tentava imprimir uma peça de teatro para a qual fui desafiado. Tudo neste dia me pareceu escangalhado e desconforme. O meu pobre carro estrebucha por todas as juntas. Como amendoins atrás de amendoins, sem saber porquê. O vinho sabe-me mal. O meu pai recupera, no hospital, exausto. Vejo Chaplin e desconcerto-me com o seu trivial, e comovo-me com o seu sublime. Penso nos irmãos Marx. Falo com uma funcionária por telefone, que está apenas dois pisos acima de mim, e acho que está bem assim. Tenho saudades. Quero dizer um nome, mas não posso. Queria pegar no telefone e ouvir aquela voz do outro lado, mas o número que tentei contactar não está atribuído. Tudo me parece absurdo. A moldura digital da sala ao lado projecta sombra e luz fantasmagórica no meu quarto. A pele arrepiada, como num susto, outra vez. Sou um lobisomem, um gato, um paquiderme erecto. O cobertor deitado para trás, numa chicotada. O lençol arremessado. As almofadas desconfortáveis. Uma prega no lençol que aleija. A vaga dor de cabeça. O saldo bancário. O ruído dos restaurantes. O jantar de hoje, vagamente excessivo. O jantar adiado. A incerteza de tudo. As mãos do Urbano estreitadas nas minhas. O querer dizer qualquer coisa que seja tão quente como um raio de sol na pele. O amor, e todos os unicórnios azuis. A desesperança. As saudades e o remorso. A imprecação. A impaciência no trânsito. A vontade de evocar todas as pétalas e adormecer nelas, e a vaga sensação de me ter esquecido de qual era o seu perfume preferido. Ò amigos, amigos que não sois nada mais que amigos, como vos amo! Sem vocês, meus companheiros afáveis e ocasionais e omnipresentes, para quem a atoarda do quotidiano não conta nem pesa, nada seria suportável. Foram vocês a âncora que me permitiu fundear nesta noite de quimeras, em que quase desesperei do desejo inalcançável de devorar a raiz de tudo o que posso dizer que, para mim, contém o gosto do mundo. Devo-vos o amanhã, a preparação do amanhã. A conformação e a paz, em meio à latência que, como a ondulação, apenas chapinhando contra a amurada, nos impede de esquecer que é numa barca que vogamos. Não somos peixes, somos homens que se sonham peixes. Insones, como eles. Até amanhã.

Terça-feira, 29 de Maio de 2012

PORTUGAL DOIS MIL E QUANDO?



Os grandes eventos nos quais a Cultura desempenhou um papel catalisador da sociedade portuguesa — Europália 91, Lisboa 94, Expo 98, Porto 2001, aos quais se junta, com menos fragor, Guimarães 2012 —, são grandes oportunidades desperdiçadas — e irrepetíveis, a médio prazo —, para enraizar na própria sociedade portuguesa a ideia de que a cultura é indissociável do seu índice de desenvolvimento, seja sob que prisma for que a ideia de desenvolvimento ou de sociedade portuguesa se considere. Quisemos mostrar ao mundo que tínhamos cultura, e fingimos que a acarinhávamos, que a protegíamos e que lhe dávamos condições de sustentabilidade. Foi um bluff, para impressionar os estrangeiros. Bastou, por exemplo, ser outro senhor ganhar as eleições autárquicas na segunda cidade do país, e dezenas de actores do Norte mudaram-se para Lisboa, em êxodo, a tentar a sua sorte. Fingimos que também éramos um país que prezava as artes, mas, quando a festa acabou, mandámos os artistas para casa, depois de lhes pagar, a contragosto, um cachet — que sempre achámos que os artistas não merecem. E desse enorme parque de ideias, de aprendizagem, de material, de meios e de recursos, o que sobrou? Apenas a ideia peregrina de que era preciso criar cursos e mais cursos de gestores culturais e de programadores, essa coisa bonita que nem os próprios sabem exactamente o que é, e que dá direito a gabinete e ao exercício de um vago poder discricionário que, em regra, ou canaliza mais meios para aqueles que já dispõe de meios (o conhecido efeito potenciador), ou trata de impedir que as populações tenham acesso à oferta artística diversificada a que teriam direito, mas de que o seu curador não gosta. Não pergunto já se muitas comunidades locais e as autarquias se demitiram de pensar a coisa cultural graças a uma espécie de sub-contratação de políticas culturais. A pergunta é: para que são precisos tantos gestores culturais, se não há nada para gerir? Investiu-se, como sempre nos burocratas — esclarecidos, depreende-se —, em desfavor no investimento nos criadores. Na verdade, esses grandes eventos nacionais foram oportunidades de ouro para fazer sentir à sociedade como a cultura é preciosa, e para estimular na sociedade a partilha de responsabilidades no respeitante à cultura, fomentando, por exemplo, o mecenato, criando condições para que as empresas se envolvessem com o tecido cultural, em vez de se limitarem a apoiar uma ou outra companhia de música ou dança de referência, ou um qualquer grande museu. A verdade é que, ontem como hoje, as empresas encaram o apoio a uma pequena companhia de teatro ou dança como algo parecido a descer muito baixo — descer até onde os artistas estão, é o que isso quer dizer. Perante isto, é óbvio que o subsídio — o financiamento público das artes —, continua a ser não apenas necessário, como o é sempre e em todo o caso, mas também imprescindível. A sociedade portuguesa, através do seu tecido empresarial, é incapaz de apoiar os seus artistas, mesmo que isso signifique pagar menos impostos, porque a verdade é esta: não os grama! Não os grama, não os aprecia, não os entende e não se quer misturar com eles. Poderia dar aqui exemplos caricatos de grandes instituições que, após negociações singelas, se ofereceram para apoiar projectos teatrais com... duas ou três dezenas de euros! Este tipo de exemplos é absolutamente factual, e indicador do estado paleolítico em que a relação abstracta das artes com a sociedade se encontra no nosso país. Perdida a oportunidade dos grande eventos, é sintomático que, com tantos gestores culturais formados ao longo dos últimos anos, não se ouça nenhuma voz a alertar para o estado insustentável a que se chegou. A razão é simples: esses gestores sabem gerir, melhor ou pior, os recursos, por escassos que sejam, quando os há, mas não estão preparados para lidar com a crise dos recursos, que é não é apenas uma crise do nosso sistema político: é uma crise basilar da nossa sociedade, na medida em que desafia a própria ideia de sociedade em que imaginamos viver. O seu silêncio é ensudercedor, para usar uma imagem demasiado puída. Mas a luta e o protesto contra este inaceitável estado de coisas não se enquadra, aparentemente,  nas suas funções.

Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

A CULTURA SEGUE DENTRO DE UMA DÉCADA




Para Francisco José Viegas, o Secretário de Estado da Cultura, o sector cultural vive uma espécie de "hora da verdade"; com o cinema suspenso, com os apoios anuais suspensos, depreende-se que a expressão significa qualquer coisa como: a maior parte cai que nem tordos, e fica só aquilo que deve ficar, o inefável mainstream dos teatros nacionais e municipais— financiados, claro, pelo Estado (ou deveria dizer: “subsidiados”?) —, e, bem entendido, o que vai sobrando das “companhias históricas”. Ao fim de 38 anos de democracia, a questão do subsídio continua a ser o ponto central do debate em torno da coisa cultural, e isso é trágico: o subsídio é, na verdade, a questão de onde já devíamos há muito ter descolado. Mas fomos incapazes de gerar, em democracia, uma classe política consciente do lugar da cultura na sociedade. O mais que se conseguiu foi erguer a cultura, simbolicamente, a Ministério, na institucional esperança de que os demais agentes políticos se capacitassem da sua importância. Não capacitaram. A sua prioridade encapotada é, e sempre foi, remeter a cultura — de que não serão, sequer, consumidores, por aversão congénita —, a um lugar que, na sua visão, não corra o risco de escandalizar o resto dos Portugueses. Sim, porque a cultura vive de subsídios, ao passo que, como todos sabemos, a indústria, a agricultura, as pescas, e mesmo os serviços, vivem apenas e exclusivamente do mercado... ou serão, afinal, também estas áreas objecto de subsídios, programas de apoio, incentivos fiscais, isenções e financiamentos? Houvesse uma verdadeira hora da verdade nacional, e fossem retiradas a todas estas áreas os apoios directos ou indirectos de que beneficiam, e a convulsão seria enorme. Mas, hoje em dia, suspenda-se a 100% (!) todos os programas de apoio ao cinema e às artes e veja-se o que acontece: nada. A arte e os artistas perderam qualquer capacidade de interpelar a sociedade e o poder político a respeito da questão essencial da cultura. E têm nisso grande responsabilidade. Não raro, o escândalo dos artistas foi fulanizado. As dissensões entre artistas sempre foi o sorvedouro das suas energias que bem poderiam ser, ao invés, melhor empregues a procurar estabelecer com o Estado os pilares de uma articulação democrática e transparente entre os meios e a sua aplicação, devidamente escrutinada. Pergunte-se, então: quem foram, no Cinema, no Teatro e nas Artes em geral os interlocutores dos artistas, produtores e criadores com o Estado, ao longo dos nossos já trintões anos de democracia? E que contribuição particular (em ambos os sentidos) deram para que a democracia, no sector cultural, funcionasse, de um modo transparente e avalizado pelo conjunto dos visados? Por outras palavras: alguém está surpreendido com este ataque generalizado à cultura? Eu não.  O caldo de cultura é propício... E, sendo a situação verdadeiramente trágica para tanta gente (não falo das lágrimas de crocodilo de alguns), diria, correndo o risco de glosar em demasia os dislates no nosso primeiro-ministro, que esta é uma excelente oportunidade para nos pormos a pensar.

Terça-feira, 15 de Maio de 2012

NOS 90 ANOS DAS APARIÇÕES...



As aparições de Fátima fazem 90 anos; dado o seu elevado grau de deterioração, que quase tornam as aparições invisíveis ao olhos do espectador contemporâneo, seria importante uma intervenção de restauro, talvez pelo Arquivo Nacional de Imagens em Movimento, o único organismo que tem a responsabilidade de restaurar não apenas filmes mas outras imagens em movimento em qualquer suporte e de qualquer época, formato, género, regime de produção ou proveniência.

Domingo, 29 de Abril de 2012

TÉCNICA DA MÁSCARA — MASK TECHNIQUE







Fim-de-semana de workshop de Técnica da Máscara orientado por André Gago, e organizado pela Metamorphose — Centro de Divulgação Artística, do Cabeção, no Alto Alentejo. Foram 12 horas de formação nestes dias 28 e 29 de Maio, inseridas no Festival Encontr’Arte 2012, durante as quais abordámos o essencial da Técnica enquanto linguagem que utiliza o corpo como elemento expressivo, com recurso à improvisação e à pantomima. No segundo dia, as máscaras neutras e da Commedia dell’Arte fizeram a sua entrada. Avançámos no sentido da improvisação, e pudemos ainda assistir a saborosas primeiras improvisações de um Doutor e de um Polichinelo (com máscaras do escultor italiano Renzo Antonello).


This weekend, a new Mask Technique Workshop oriented by André Gago took place in Cabeção (Alentejo, Portugal), organized by Metamorphose, a local artistic association. During a total 12 hours workshop, we approached the essential mask techniques that help actors use their body in a expressive way, to improvise and to perform pantomime. In the second day, Neutral and Commedia dell’Arte mask made their entrance. We moved on in improvising according to the technique, and had the chance to see a Dottore and a Pulcinella (with masks by italian sculptor Renzo Antonello).

Segunda-feira, 23 de Abril de 2012

cloud extensions as seen through the aircraft window



It is impossible to look towards that vastitude of white cliffs without seeing on them the
almost incandescent surface of what seems to be a infinite icy plateau groined over
bottomless abysses. The corporeal clouds turned in a imaginary desolated topography,
though inhabited by the dreams likelihood. This could be the consciousness ocean planet
of Tarkovskyʼs Solaris. Or it could be the impregnable Walhalla, or the magical shelter of all
Northern mythologies. This landscape, however, truly exists, apparently made of water
enduring his pregnancy of the coming rain. Nevertheless, it is made of such stuff as
dreams are. Therefore, each thing is what it is, but his precise definition depends on the
observer. In the end, the observer is the measure of all things. The observed things,
however, should therefore fear their scope of possible names or adjectives to be reduced,
because they have been nominated in a mutual agreement among the observers trough a
common tool named language. Sugar is not knife, menstruation is not wine. But, again,
therefore isnʼt language bigger than reality? It is so, because, in order to define each
single thing, she has to define not only the possibility of his contrary but be aware of all the
words that each word, for the fact that we choose to use it, excludes. Menstruation is not
wine, for instance, implicates also that menstruation is not aircraft, isnʼt gulag either, nor
pudding, nor priesthood. The full catalogue of the contraries and of everything that a
specific thing is not reveals itself to be a inebriant process. One shouldnʼt therefore feel no
awkwardness before the fact that language, taking possession over everything that it
describes, gains a powerful freedom. Language is a prodigy because, through the very
same abstract process by whom it was generated, it allows us to say that a white cloud is
a stain of blood. The purest essence of language contains the wondering absence of
meaning, witch is the very secret ingredient of the verbʼs alchemy. Shakespeare would say
that a rose would still be a rose by any other name. Gertrude Stein told us a rose was a
rose was a rose was a rose. Meanwhile, we unfortunately came to know the rose of
Hiroshima, with no rose in it, nor perfume, or nothing. This rose was depicted by brazilian
poet Vinicius de Moraes, in this arm of our linguistic galaxy that we by convention use to
call portuguese.

A. Gago

(Notes to the trip to Budapest, April 2012)